Sobre velhice e escolhas - Rei Lear e Hamlet no Laboratório de Humanidades

Sou psicóloga do Departamento de Psiquiatria da UNIFESP e estou fazendo meu doutorado. Para completar meus créditos estava a procura de aulas que pudessem me interessar e fazer mais sentido com o meu trabalho. As aulas oferecidas pela psiquiatria são em sua grande maioria voltadas para as chamadas “hard science”, o que me deixava um pouco por fora, pois, apesar de trabalhar com avaliação psicológica que utiliza testes e mensuração, o modo de usar esses recursos é diferente.

 

A relação que estabeleço com os testes psicológicos é utilizá-los como um recurso para entrar em contato com a pessoa que estou tentando compreender melhor, é um recurso para me colocar no lugar dela e imaginar como seria ser uma pessoa daquela forma. Outra maneira possível de utilizar esse recurso é por meio dos resultados, do modo como a pessoa se comportou e se colocou durante as avaliações, as suas falas e as suas metáforas como recursos para ajudar a construir juntamente com a pessoa uma história sobre si mesma, uma narrativa.

Em decorrência desses aspectos achei bastante interessante poder participar de uma discussão literária. Essa foi minha primeira experiência no LabHum, assim como também foi minha primeira experiência lendo Shakespeare.

Eu me confundi e ao invés de começar pelo livro Hamlet, comecei a leitura pelo livro Rei Lear. A primeira leitura do Rei Lear foi bastante difícil e num primeiro momento fiquei com a impressão que se tratava de uma dificuldade minha. 

Deixei o livro de lado e fui ler Hamlet, e a leitura se tornou um pouco mais fácil. Acredito que o fato de ter me acostumado um pouco mais coma leitura em formato de peça teatral facilitou a nova leitura. Ao fazer a segunda leitura do Hamlet a mesma estava ainda mais fluída. Eu não estava com os livros das versões recomendadas de tradução do Millôr Fernandes e sim a da Barbara Heliodora, da editora Fronteira, que me parece ser um pouco mais difícil, por ser escrita de uma forma mais versada e diferente da forma mais palatável da tradução de Millôr.

Contudo, a partir das discussões e da escuta da experiência dos demais participantes fui compreendendo que sim, eu tive uma dificuldade particular com as obras, mas também pude perceber que os outros também tiveram dificuldades. No entanto, percebi que fiquei bastante incomodada com o personagem Rei Lear, um personagem que me despertou muita raiva e indignação. 

E foi justamente essa a riqueza que me deparei nas discussões, observar como cada personagem e como a obra em si mobiliza cada um de maneira diferente e/ou com alguns aspectos parecidos. É muito interessante perceber o ponto de vista de cada um e a interpretação dada para os diferentes aspectos da obra. Foi também a partir do relato de cada participante que pude também ampliar a minha leitura e compreender melhor a obra.

O formato proposto de fazer uma segunda leitura é muito interessante, pois é uma forma de revisitar o que a obra despertou na gente, além de poder visitar outros pontos de vista e outras formas de despertar. A troca que acaba acontecendo é muito rica. Ficou evidente para mim como os clássicos nos tocam nos sentimentos, emoções e em nossas experiências de vida.

No caso de Hamlet fiquei bastante surpreendida pela forma como o personagem tocou as pessoas do grupo de diferentes maneiras e a riqueza da obra que contempla diferentes aspectos da personalidade e da vida humana.

A leitura do Rei Lear no fim das contas se tornou mais agradável, pois acho que foi quando consegui entender a proposta do Laboratório e mergulhar melhor nela.

De uma forma geral achei Shakespeare excelente. O modo como ele constrói cada personagem com muita personalidade, como a obra é recheada de diálogos profundos e intensos e de momentos surpreendes é cativante. Achei extremamente interessante como ele consegue a abordar o lado sombrio do ser humano, em que os personagens revelam seus defeitos, fraquezas e “pecados”, ao mesmo tempo em que em determinada altura da narrativa se vêem diante da possibilidade de repensar seus atos e sua postura diante da vida. 

São narrativas que nos fazem pensar em como estamos vivendo nossa vida e como imaginamos que será ou poderia ser se passássemos por situações em que envolvessem as mesmas emoções e sentimentos. No caso de Rei Lear, por exemplo, pensei muito sobre a proximidade do envelhecimento da minha mãe e do meu também. Em Hamlet refleti muito sobre as escolhas na fase inicial da vida adulta e na minha atual fase de vida, afinal acredito que estamos sempre repensando nossas escolhas e nossos caminhos, desde que nossas vidas se mantenham vivas, fluídas e com movimento, o que acredito ser algo saudável.

Foi um privilégio enorme conhecer o trabalho do LabHum e entrar em contato com essas obras. 

Obrigada pela oportunidade!

Tatiana Gottlieb Lerman – aluna de doutorado

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