Pertencer - por Isabela Garrido Gonzalez

leitora livro 480x360Desde a minha infância, várias vezes, senti uma solidão por não pertencer. Além disso, sempre fui dada à introspecção, com tendência a criar meu próprio universo. Dentro desse meu universo próprio, muito cedo, eu encontrei refúgio na literatura, os livros sempre foram grandes amigos, transbordando magia e pertencimento.

Ao longo da minha vida, a literatura teve o poder de me transportar para um mundo à parte e os livros foram meu encontro com a lucidez, minha paz, minha resposta e minha inquietação, minha oração e as bibliotecas, o meu templo.

 


Ler me ajuda a pôr em ordem as banalidades da minha vida, me ajuda a encontrar a sutileza no mundo, “a realidade mais delicada e menos visível a olho nu”. Entendo a literatura como um aprendizado diário, ela moldou e molda quem eu sou. Sim, para mim, ler é um modo de ser e é, também, um modo de tornar a minha vida mais leve e suportável. Porque viver dói e os bons livros têm me salvado diariamente. Ler acalma a minha dor de existir.

Diante da importância que os livros têm na minha vida, encontrar uma disciplina da pós graduação médica que contempla a leitura de clássicos me fez muito feliz. Descobrir que no período em que poderia me matricular leríamos Dostoiévski, meu escritor preferido, literalmente, me fez chorar de emoção. Achei mesmo que era um presente do universo!

Habituada à leitura em solidão, ler em grupo foi o meu segundo presente. E que riqueza são as pessoas quando elas realmente estão “sendo”....!

Ler em grupo me mostrou que o mesmo livro pode ser lido de diversas formas e que sua interpretação pode ser muito mais profunda. O olhar do outro enriquece e te mostra sutilezas antes não vistas.

Foi uma experiência tão valiosa que eu volto à “história” do pertencer, segundo Clarice – “a vida me fez, de vez em quando, pertencer e então eu soube: pertencer é viver”. É exatamente isso que eu senti durante a leitura em grupo no LabHum: eu estou pertencendo. A possibilidade de expor meus sentimentos através da literatura, a possibilidade de apenas “sentir” o olhar do outro, tudo isso me fez pertencer. E tudo isso é vida. Parafraseando Clarice, eu experimentei esse curso com a sede de quem está deserto!

Mas, preciso aqui registrar, ainda, que tudo isso não seria tudo isso se não fossem as pessoas. Retomando o tema que discutimos em aula, a redenção pelo amor, eu queria deixar uma última mensagem, uma “oração” de Clarice Lispector:

“Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e, às vezes, receber amor em troca.”

Essa experiência foi, para mim, uma troca de amor. Obrigada!

 

Histórias de Convivência 
Isabela Garrido Gonzalez
24/05/2019

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