Relatório Labhum: Anos de Aprendizagem, por Luiz Leonelli

Se o exercício da participação no Labhum envolve se ‘atirar ao precipício’, conforme sugerido nos últimos encontros, em particular na experiência afetiva, estética, entre outras, compartilhadas coletivamente a partir dos textos apreciados neste semestre

, das histórias de leitura à convivência e seus respectivos itinerários de discussão, em nosso mergulho pessoal no processo em tela, o primeiro esboço de síntese ou interação ‘alquímica’ de ambos é na reflexão da dualidade, pertinente à natureza humana e a importância de seu reconhecimento e aceitação, para fomentar uma concepção integrativa de humanidade, que possa indicar e, quiçá, inter(agir) sobre as patologias fragmentárias (por excelência) da modernidade, no resgate do sentido de ser, seminal e implícito no humano, em práxis permanente de formação.

Como sinalizado em nosso depoimento no último encontro, os textos são ‘bordados’ mediante pontos em comum, tecidos por protagonistas/heróis na busca do sentido de suas existências, que procuram ‘a ordem no caos’, mediante peculiar tecelagem nos fios do teatro e os seus desfechos coincidem em casamentos, revestidos de simbolismos próprios em cada obra.

Nos Anos de Aprendizado (AA), a arte do drama e da ação (enquanto ferramenta) está posta a serviço do despertar de Meister, de sua condição familiar burguesa, da situação limitante de dependência paterna, de discípulo errante a mestre de seu aprendizado, em libertário processo de questionamento e ruptura, desde a antiga predileção pelas brincadeiras com marionetes, da energia lúdica e criativa que trazia da infância, da relação de amor e desventuras afetivas com uma atriz e posterior inserção na companhia teatral e interpretação de Hamlet, que lhe possibilitou, entre outras experiências nesta jornada, uma espécie de vivência psicodramática e, por que não? terapêutica e integradora de seu psiquismo/humanismo através deste ofício, no curso de sua formação/realização, plasmada com a descoberta do filho e coroada no matrimônio com a mulher que implementa a sua transformação de adolescente em homem, de aprendiz ao exercício da liberdade de ser e com inerente lucidez, congruente à sua maturidade nesta luminosa saga.

Diversamente, no Vestido de Noiva (VN), uma metáfora da vida como ela é..., no jargão e narrativas de Nélson Rodrigues, tecida e imersa no próprio contexto teatral, que se reporta (a nosso ver) ao ‘véu’ que obscurece a percepção da protagonista, tal e qual o conceito hindu (da literatura védica e budista) de maya ou ilusão (relativa ao apego dos seres humanos aos desejos, causas de seu sofrimento na existência nesta conceituação), símbolo do objeto de desejo (Pedro), com o qual desposou e pelo qual se aprisionou, mediante obscurecimento ou cisão de sua consciência, expressa pela fragmentação desta nos três planos onde o ‘drama’ se desvela, a propósito da realidade, memória e alucinação, simultaneamente à sua condição existencial/moribunda entre a vida e a morte, dilaceração do corpo e a desesperada luta interna para ‘juntar seus cacos’, entre fantasmas como a madame Clessi e as trevas de sua persecutoriedade (matar Pedro ou ser morta por ele e Lúcia), que lhe acompanharam ao longo dos três atos da peça.

Tal contraste entre luz e escuridão, na perspectiva do cultivo da consciência ou obscurecimento desta, sugeridas pelo confronto das ‘dramatizações e escolhas matrimoniais’, vivenciadas por Meister e Alaíde, podem remeter a outras dimensões da referida dualidade.

Em nosso itinerário pessoal e compartilhado dos AA, no Labhum, era como se estivesse em animado piquenique, permeado pela alegria de viver manifesta em nossos encontros e, durante a leitura, degustando um prato delicioso, que como tudo que é ‘gostoso’ e alegre, o tempo subjetivo passou voando, apesar de seu considerável volume.

Já que cabe aqui repercutir as ponderações estéticas e gustativas alusivas não só desta obra/iguaria como também do VN, a percepção foi de um ‘remédio’ amargo ou daqueles ‘quitutes’ duros e pesados, que parecem pedras que estagnam no estômago, difíceis de engolir, digerir e descer, razão pela qual me senti várias vezes em espécie de emapachamento e torpor anestésico, feito um fantasma com indigestão frente ao nosso grupo, com franca dificuldade para me manifestar, sensorialmente falando, com o tempo passando lento e dolorido, sem saber direito o que estava sentindo ou pensando, tal e qual a agonia de sofrimento e morte, dramatizados neste ‘livro das sombras’, como denominou a colega Estela.

Além deste binômio vida/morte, outros contrastes foram captados em nossa trajetória no Labhum no presente semestre e se reportam aos aspectos coletividade/individualidade; alteridade/egocentrismo; espírito e corpo, entre tantos possíveis por discriminar nos dois textos.

Nos AA foi notório o processo de formação, educação dos afetos do protagonista, mediado pelo conjunto de relacionamentos não só pessoais, como grupais e que culminaram na sua ‘diplomação’ pela Sociedade da Torre, coroada pelo abade quando proferiu ao Meister “- Glória a ti, jovem! Chegaram ao fim teus anos de aprendizado; a Natureza te absolveu” (p.473) e na Carta de Aprendizado: (...) “O espírito pelo qual agimos, é o que há de mais elevado. Só o espírito compreende e representa a ação. (...) O verdadeiro discípulo aprende a desenvolver do conhecido o desconhecido e aproxima-se do mestre” (p.472).

Em oposição, no VN, no ‘plano de realidade’ da protagonista inconsciente, em estado de coma pós-acidente, sua interação com os médicos foi através de seu ‘belo corpo’, segundo percepção dos próprios, que ainda preconcebiam que não estaria sofrendo ou nada percebendo em sua inconsciência, corpo ainda controlado e com manutenção de seus sinais vitais por seus procedimentos, em paradoxo à sua luta individual, referentes aos planos da memória e alucinação, onde se configurou seu isolamento no âmbito de lembranças e fantasias, sugeridas anteriormente como o ‘véu’ a obscurecer sua percepção e consciência, assim como, na dinâmica afetivamente pobre ou carente de alteridade nela e nos demais personagens da peça, imersos em seus próprios egos e interesses, ressalva talvez sugerida pelo grupo, no caso de Lúcia, em seu peculiar amor por Pedro, que, aliás, efetivamente vingou, como sempre desejou e de modo identicamente vingativo em relação à irmã, na cerimônia de casamento ao final do III ato, ao som sugestivo da marcha fúnebre.

Finalmente, agradeço aos coordenadores e participantes pela feliz e produtiva experiência deste Labhum, com saldo muito promissor não só em termos educacionais e profissionais, como estéticos, na perspectiva de não excluir da atenção e compreensão (nem sempre concedidas) às sombras que permeiam o comportamento de nossa espécie, essenciais ao desenvolvimento da humanização, simultaneamente ao cultivo perene da afetividade e à luz da consciência, na aceitação de nossa humanidade em toda sua expressão contraditória e ambígua, que caracterizam nossa dualidade, entre espírito e corpo, vida e morte, refletidas no diálogo entre as obras, de acordo ao que nos suscitou e conforme procuramos demonstrar neste relato.

Reiteradamente grato pela oportunidade,

Abs,

Atenciosamente,

Luiz Leonelli

São Paulo, 29/06/2012

Relatório Labhum: Anos de Aprendizagem de Wilhelm Meister e Vestido de Noiva ou o Drama da Consciência Humana Entre Luz Escuridão Espírito E Corpo, Vida E Morte
Por Luiz Leonelli
2012 - 1º Semestre

 

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