SEM ACABAR DE SE ACABAR NUNCA

"Que o passado era mentira, que a memória não tinha caminhos de regresso, que toda primavera
antiga era irrecuperável e que o amor mais desatinado e tenaz não passava de uma verdade efêmera."
(Gabriel Garcia Marquez, em Cem anos de solidão)

“Olá! Lembro que sua inscrição está confirmada no LABORATÓRIO DE HUMANIDADES”. Com este email, recebido no dia 15 de janeiro, começa minha experiência no Laboratório de Humanidades. Valeu a pena ter colocado alarme para não perder a inscrição, já que havia tentado, sem sucesso, nos dois semestres anteriores. Estava curiosa com a disciplina tão comentada entre colegas de mestrado e amigos da UNIFESP, principalmente quando soube que havia deixado de acompanhar a leitura do livro “A elegância do ouriço”, que eu tinha lido e gostado muito.

Fiquei mais curiosa ainda quando soube que o livro do semestre seria “Cem anos de solidão” de Gabriel Garcia Marquez. Um livro que ficou em minha cabeceira por muitos anos, que comecei a ler diversas vezes sem nunca consegui ir até o fim. Um livro que não “me pegou”, apesar de ter lido e gostado de muitos outros do mesmo escritor e de ter considerado o “Amor nos tempos do cólera” como um dos melhores livros da minha vida. Não tinha jeito: desta vez eu teria que encarar até o fim aqueles milhões de personagens, aquela guerra que não terminava nunca, aqueles anos encharcados de tanta chuva.

Li até o fim antes dos encontros começarem, sem muito entusiasmo, meio como uma lição de casa a ser cumprida. Mesmo reconhecendo a qualidade do livro, o estilo inconfundível do autor ao lidar com as palavras, sua capacidade de criar e recriar o fluxo da história, gostei, mas não amei.

Mas, no decorrer dos encontros o livro foi crescendo. Cresceu de tal maneira que transbordou dentro de mim (“não podia mais com a alma” ou minha alma não podia mais com o livro). Os personagens, Macondo, a guerra e os pergaminhos passaram a fazer parte do meu dia a dia. Em cada conversa, em cada situação, me percebia pensando em Úrsulas, Amarantas, Fernanda, Aurelianos, Arcadios, Petra Cotes, bordados, formigas, borboletas, chuva, solidão, tempo, envelhecimento, vida, território, amor, ódio, paixão, tesão, esquecimento.

Quanto mais me aprofundava na leitura, mais me impressionava com o autor. Como pode uma pessoa comum escrever desse jeito? Como pode criar tantas frases perfeitas? Como pode amarrar tão bem uma narrativa a ponto de não deixar nenhum detalhe, nenhum personagem sem um fim? Como pode criar personagens tão singulares? Como pode escrever tão bem sobre sentimentos, vida, morte, esquecimento e lembranças? Como pode criar metáforas tão significativas? Como pode usar tanto simbolismo?

Pensei muito sobre o que escrever neste relato de experiência. Uma experiência de leitura única. Tenho a sensação de que só agora aprendi a ler. Poderia ficar aqui tecendo parágrafos e mais parágrafos a respeito de minhas anotações sobre Macondo (de aldeia feliz, luminosa e plácida a um povoado morto, deprimido e esquecido), sobre o envelhecimento (lucidez ou solidão?), sobre a casa (pintada de vermelho ou azul? Portas e janelas abertas ou fechadas?), sobre o tempo (dando voltas sobre si mesmo; “olha o ar, ouve o zumbido do sol, igualzinho a ontem e anteontem!”), sobre existências (“tardes mortas na sala de costura”) e sobre os personagens (retraídos, apaixonados, loucos, herméticos, expansivos, inquietos, mas sempre solitários em seus pensamentos e sentimentos secretos). Poderia destacar frases e mais frases que me surpreenderam por sua beleza, sensibilidade e profundidade. São tantas que nem me atrevi a começar.

Tenho vontade de ler e reler cada frase sublinhada; de pensar e repensar cada situação descrita; de me encantar e desencantar com cada um dos personagens; de me alternar entre a lucidez e a loucura, entre verdades e mentiras. Vontade de fazer e desfazer, fazer e desfazer, fazer e desfazer...

Já sinto saudades do livro (“à medida que o navio se afastava, a memória ia se tornando triste”).

por Maria Claudia Martins Ribeiro

São Paulo
Maio, 2018

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