Escola Paulista de Medicina
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Como que eu vou me expressar se não sei o que eu sinto? (A catarse de Holden)

Por Maria de Moraes Dino de Almeida

Aluna do Laboratório de Humanidades (Eletiva) do CeFFi-Unifesp (Outubro de 2019)

Relato de leitura do cilco O Apanhador no Campo de Centeio

Vou começar esse relato dizendo o quanto eu enrolei pra escrevê-lo. A proposta é simples: depois de algumas semanas discutindo o livro, O apanhador no campo de centeio, escrever o que você achou da leitura, da discussão e como isso te afetou. Mas como assim? O que eu acho? É permitido expressar a primeira pessoa? Usar pontos de interrogação? Estranho.

Não lembro a última vez que realmente me expressei. Escrevi muitos textos defendendo isso ou aquilo, colocando a tese no primeiro parágrafo, desenvolvendo dois argumentos seguros em outros dois e fechando com uma conclusão mais ou menos óbvia com ares de inovação em até trinta linhas. Afinal me treinaram foi pra isso né. E fui muito bem treinada, tanto que passei na faculdade de medicina. Só que nesse meio tempo de dedicação intensa eu fui perdendo muito da minha criatividade, expressão e interesse por fazer qualquer coisa. Em suma, fui perdendo minha autenticidade.

E eu estava razoavelmente confortável com esse panorama meio anestesiado, desinteressado e um pouco alienado até a eletiva do Laboratório de humanidades. Enrolei para ler o livro, porque, pelo título, achei que seria uma leitura mais pesada, talvez sobre algum personagem rural sofrido no meio-oeste americano. Mas me deparei foi com o Holden Caulfied, um adolescente perturbado por muitas questões e crises existenciais que buscava sua autenticidade.

A empatia pelo personagem foi imediata e lembrei bastante da minha adolescência. Foi muito menos dramática que a do personagem, mas no fundo as angústias eram parecidas. E lembrei também do que eu fazia, do que eu gostava, de como eu era. Autêntica. Nem foi há tanto tempo assim, mas a diferença é notável.

Com as discussões, fui percebendo que era muito comum as pessoas dizerem que antes liam muito e queriam voltar, ou que sentiam falta de alguma atividade mais “humana” na rotina. É bizarro que um monte de estudantes da área da saúde, cuja formação é literalmente para melhorar a qualidade de vida humana, sinta falta de humanidade na formação. Essa é uma questão complexa, digna da indignação de Holden, por sua aparente hipocrisia, mas não consigo pensar em alguma coisa inteligente pra dizer sobre isso.

Ao invés disso, vou falar do como a busca do personagem por autenticidade fez perceber que eu não tenho mais nenhuma. E não é uma experiência muito agradável descobrir isso. Fiquei pensando: como que fui deixar chegar a esse ponto? Cada aula que passava eu também queria mais, porque os temas que o professor levantava eram muito cativantes, como por que a gente sente raiva do garoto? Por que fazemos o que fazemos? Por que agimos do jeito que agimos?

A conclusão que cheguei foi que faltava um pouco de filosofia na minha vida. Nada do tipo imperativo categórico ou se é lógico que o Sol vai nascer amanhã (embora sejam questões interessantes). Digo mais em relação a considerações sobre o comportamento humano e reflexões sobre as coisas que acontecem no dia a dia. O desinteresse que eu sinto se dá por eu não prestar atenção suficiente nas coisas, nem apreciá-las. A falta de arte na vida, junto com filosofia, também é um ponto central nisso. Como que eu vou me expressar de modo autêntico se eu não sinto nada ou não sei o que eu sinto? E como eu vou sentir alguma coisa ou saber o que eu estou sentindo se eu não tenho nenhum estímulo pra isso?

De modo geral, da experiência do laboratório de humanidades e da leitura de O apanhador no campo de centeio, me ficou uma grande crise existencial interna, mas no melhor sentido da expressão. Provocou uma vontade de resgatar todos os elementos estranhos e peculiares que eu fui reprimindo pra me adequar mais fácil ao que era esperado de mim. Deu vontade de ler mais, estudar mais história, tentar desenhar, pintar, usar umas roupas bem doidas, cantar desafinado e tocar um violão. E fazer tudo isso só por fazer, sem tentar prever o que alguém por ventura esperaria de mim.
Termino esse texto dizendo que foi uma experiência catártica escrever isso aqui. Desculpa a quem tiver lendo se tiver ficado confuso, tiver muitas digressões ou se for ruim. Mas eu até que gostei de escrever, então vou me dar o direito de não me importar.

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