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Viver o hoje: reflexões sobre a A Elegância do ouriço (por Fernanda Chequer de Alcântara Pinto)

a eleganciaDurante o ciclo de encontros com o livro “A Elegância do Ouriço”, tive grandes oportunidades de realizar reflexões acerca das questões humanas, nossos comportamentos, atitudes e diferentes formas de reações.

O livro conta a história de uma zeladora de um prédio de pessoas ricas, que possui muito conhecimento, porém não o transmite, e vive com ele escondido dentro de si mesma, na tentativa de “enganar” os moradores e conhecidos. Ao mesmo tempo, ocorre a história de uma das moradoras do prédio, filha de um funcionário com cargo público, ela tem o desejo de se suicidar, por achar o mundo injusto e insuficiente para todas as suas qualidades. As histórias correm em paralelo e ao poucos vão se unindo, quando finalmente chega um novo morador que transforma toda a narrativa, as relações e os comportamentos dos personagens.

A personagem Renée é de uma riqueza incrível e muito me fez recordar de diversas situações em que temos que nos calar e fecharmo-nos com em uma ostra, para evitar julgamento e preconceitos, principalmente nos dias atuais. Porém, ao contrário de diversas situações das quais vemos as pessoas demonstrando conhecimentos que elas não possuem, como se fossem especialistas, nesse livro vemos o contrário, ela quer evitar a todo o custo que as pessoas saibam que ela é uma grande “estudiosa”, e se disfarça.

Já a Paloma, em toda a sua fala, me remeteu às circunstâncias de descontentamento com a “loucura” do mundo atual e a minha constante insatisfação com a injustiça atual. Mas, principalmente me trouxe à tona as relações familiares, lembrei a todo o momento sobre as relações que vivencio no consultório, entre pais e filhos e como elas estão desgastadas e afastadas nos dias atuais.

Para finalizar as sensações que tive com os personagens, chega o novo morador, Ozu, que consegue trazer uma leveza para a história, mais amor e esperança para as vidas das duas anteriores. Aqui, eu acredito que o principal ponto foi relembrar quem são os “Ozus” que já entraram na minha vida e a tornaram mais digna de viver. São sentimentos de alegria, com relação às pessoas de personalidades totalmente diferentes, outras criações, mas que fazem a gente repensar na correria do dia a dia e saber que isso tudo vale a pena.

São esses os motivos que fizeram com que esse fosse o melhor livro que já li, ao longo de quatro ciclos com o grupo. Ele é real, não dinâmico, mas intenso, assim como nossa vida. Ele começa no marasmo, com relações superficiais em sua maioria, cada um tocando a sua vida, vivendo seus disfarces e vestindo suas máscaras, com insatisfações e questionamentos constantes. Não posso aqui deixar de citar a semelhança com a nossa vida real.

Ler esse livro foi como ver a minha trajetória nesse mundo, o quanto os sentimentos, bons e ruins conseguem nos trazer experiências incríveis e também ver que não estou sozinha nesse barco.

O mundo real é muito difícil, com a correria atual e os milhões de prazos, então vejo que realmente as relações humanas, a empatia e mesmo o amor ficaram para trás nesse percurso. As pessoas estão presas e restritas ao próprio mundo, pois a quantidade de críticas e julgamentos que aparecem quando nos expomos ou damos nossas opiniões é imensa, a intolerância está no seu auge.

Do ponto de vista das relações familiares, observo que atualmente existe uma tendência a terceirização da educação, do companheirismo e da parceria entre pais e filhos, isso, para mim, está bem marcado no livro, com as aflições não notadas pelos pais da Paloma. O interessante é que durante a leitura do livro, eu também tive a oportunidade de ler, “Filhos mimados, pais negligenciados”, que tratava exatamente da forma como as relações parentais se modificaram e como a população adulta atual tem se comportando perante a isso.

A Paloma possui uma inteligência e um conhecimento excepcionais para a idade, porém as relações de afeto dela estão conturbadas e ela vai buscar esse apoio em outras pessoas, porque sua própria família ignora seus sentimentos e necessidades.

A forma como ela não se conforma com a realidade de outros locais também é bem aflitiva para o leitor empático, que se incomoda com tais questões, pois se pararmos para pensar nas injustiças e na forma como algumas pessoas vivem, enquanto outras esbanjam, é de uma falta de humanidade imensa.

Muito também se discutiu pelo fato das duas serem dois ouriços, e mesmo da comparação com a vida da camélia - que ela se escondeu a vida toda e deveria ter vivido mais, que quando isso aconteceu ela morreu. Concordo com tais aspectos, mas confesso que acredito que se ela não usasse essa máscara, os moradores não há manteriam nessa posição, por ser ela mais conhecedora que muitos deles.

A chegada de Ozu realmente trás uma fluidez para a leitura e uma esperança para a vida de Paloma e Renée, foi realmente encantador ler como ela vai desabrochando enquanto descobre um novo amigo e um amor verdadeiro.

Para finalizar, confesso que não gostei do fato dela ter morrido e não ter tido a chance de viver dessa nova maneira, porém é mais um momento que a autora nos faz pensar sobre a importância de vivermos o percurso e não ficar esperando o futuro chegar e algo acontecer, os acontecimentos são agora, diários e momentâneos.

Aluna: Fernanda Chequer de Alcântara Pinto

Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Distúrbios

da Comunicação Humana/ Departamento de Fonoaudiologia

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