Escola Paulista de Medicina
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Final feliz e a vida trágica em O Idiota, de Dostoiévski

A princípio a ideia de discutir um livro num grupo, como um clube do livro, parecia muito interessante. Fui apresentada nesta disciplina à literatura Russa. Bom, o primeiro contato, não me parecia muito agradável, os nomes eram terríveis de se pronunciar, ligar o apelido a personagem era uma dificuldade, lembrar de cada um e se era do bem ou do mal. Tudo muito novo. Mas será que somos do bem ou do mal?

As discussões foram proveitosas para desarrumar tudo que parecia organizado nos meus conceitos, vários conflitos gerados, no princípio nenhuma conclusão ou resposta encontrada. Pensei comigo, eu já era confusa, agora então …!

O Idiota, o título, sinceramente, não me atraia. Depois que me situei nas personagens, que achava que começava a compreender algumas questões do livro, chegava nos encontros semanais e era aquele estupor de pensamentos sobre todos eles e suas atitudes ou até mesmo a falta. O mais intrigante de todos de fato era o Príncipe. Como poderia alguém ser tão bom, tão amável a ponto de ser considerado um idiota? Apesar de ser comparado a Jesus Cristo, apresentava imperfeições e as admitia de uma forma humilde. Pude observar as várias faces de um idiota, pedir desculpas demais, perdoar em demasia, ser desprendido de qualquer sentimento de vingaça, conviver de coração aberto com o inimigo, uma essência genuinamente boa. Por que consideramos alguém de nobre estirpe, um idiota? Por que temos dificultade de compreender e até mesmo aceitar a bondade real e sincera? Será por parecer não estar ao nosso alcance?

Também observamos personagens conflitantes, como Rogójin, Nastássia e Agláia! No caso de Rogójin, alguns o consideravam mau, louco. Outros se identificaram. Mas mediante suas atitudes, ele parecia mais humano, impossível! Mas aquele tipo de humano que não era comum, como me pareceu quase que todos os outros personagens do livro. Era autêntico nas suas atitudes, independente de serem boas ou más. Tanto que culminou, no fato que dá desfecho no livro, a morte de Nastássia, que me pareceu o perseguir até que ela conseguisse ser assassinada, praticamente um suicídio! Nastássia tinha algo contraditório com o Príncipe, enquanto ele parecia se sentir atraído pelo medo (dela, de sua face...), ela fugia de seu medo (Michikin), além de não querer desgraçar sua vida por enxergar a sua essência tão boa, não se achava dígna, como se tivesse culpa de seu passado tão injusto que lhe causou tantos traumas e conflitos. Aliás, Nastássia e o Príncipe se enxergavam claramente um ao outro e de certa forma, se encantavam. Um tocava profundamente a alma do outro. Certas vezes, tive a impressão de ver os três como uma só personagem, Nastássia sendo a central e que teria dois lados, um lado bom e íntegro, representado pelo Príncipe. E o outro, seu lado mau, representado por Rogójin. Tanto que, quando ela morre, me pareceu que a vida dos dois perdera total sentido. Não conseguia enxergá-los como um triângulo amoroso. Intrigante isso.

Já com Agláia, parecia nítido o triângulo amoroso e a disputa entre elas pelo Príncipe. Agláia, segundo Michikin, tinha uma beleza que o deixava intrigado, assim como a de Nastássia. Ele as amava tanto, que ficava em total confusão. Como podem ter passados tão diferentes e serem tão parecidas em essência. As duas possuiam personalidade forte, decidida, alguns até acham que eram mimadas, geniosas. Será que, diferentemente da epigenética, onde o meio influencia o fenótipo (irmãos são mais parecidos quando convivem e passam pelas mesmas circunstâncias, medos...), poderíamos observar que o meio não influencia a personalidade? Ou seja, Agláia foi criada como uma moça de família, mimada, tinha aparentemente suas necessidades supridas. Enquanto que Nastássia sofreu a perda dos pais muito nova, sofreu abusos por parte de seu tutor, uma vida baseada em traumas e culpas. Como podiam ser tão parecidas em beleza e personalidade?

Independente de nossas personalidades, uma coisa parece ser certa, temos os dois lados dentro de nós, o bem e o mal. A questão é qual predomina nas nossas atitudes, porque ora somos bons e ora somos maus, inevitável. Não há qualquer ser humano que seja igual a Cristo, ainda que seja seu discípulo, seguidor. Ninguém é totalmente do bem ou totalmente do mal. Percebi que temos um pouco de Príncipe, de Rogójin, de Nastássia, de Agláia , entre outros personagens, dentro de nós. Pois temos atitudes diversificadas. Há ocasiões que tendemos para o bem, outras que perdemos para o mal, podemos ser dóceis e amáveis, assim como também podemos ser rudes, agressivos, mal humorados, etc. Mas o mais impor tante é a busca por dominar nossos gênios e atitudes diárias. Sim uma busca constante. E como aprendi em nossos encontros e desencontros, o quanto é preciso buscar a cada dia. Aliás, o quanto é prazeroso a busca insessante por algo, por objetivos na vida. Assim como Colombo buscava uma determinada terra e descobriu as Américas. A busca move nossas bússolas de vida, dá-nos interesse em seguir em frente. A partir do momento que encontramos o que buscamos, precisamos de novos objetivos a serem buscados. É isso que dá prazer e sentido na vida, a busca diária por algo.

Busco no aprendizado diário, seja secular, espiritual, ou se qualquer espécie, sentido na vida. Assim como um projeto de estudo, precisamos de objetivos, material e métodos, uma espécie de cronograma, avaliar resultados, discutir e concluir algo, para novamente identificarmos outros objetivos, é um ciclo sem fim de busca e aprendizado, pois quando isso se acaba, morremos. Seja morte física, ou qualquer outro tipo de morte. À propósito, o que é a morte? Discutimos muito sobre essa questão e ainda não superei esse assunto de fato. É um assunto difícil de enfrentar na prática. Mas observei como foi tratado de forma simples e real em nossos encontros semanais. “A vida é trágica, todos morreremos no final”! É, realmente, concordo... mas até então, para mim a morte seria um mal necessário, onde todos nós desembarcaremos de nossas jornadas, tenham elas sido boas ou más. A morte é a única certeza de todo ser vivo. Assim como a busca, onde o mais emocionante não é exatamente o encontrar, pois aí significa um fim. O mais importante não é morrer e sim como viver, como buscar, o que aprender…!

Enfim, acredito que buscamos terminantemente um final feliz, ainda que saibamos que a vida é trágica! Apesar dessa reflexão ser tão chocante, sejamos práticos para que possamos perceber que o mais importante não é o início ou o fim e sim o meio, o desenrolar de uma história. Até mesmo os príncipes dos contos de fadas que supostamente foram felizes para sempre, um dia chegarão ao fim, entretanto o mais emocionante das histórias era a busca pelo par ideal. Espero que este livro, O Idiota, tenha sido apenas o início de uma nova fase de buscas na minha vida. O pensar abertamente (livre de algumas amarras), discutir verdadeiramente questões intrigantes ou ideias conflitantes, seja uma prática definitivamente constante!

Anna Cristina de Farias Marques
Novembro - 2016

Obra: O Idiota, de Dostoiévski

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